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Música

Entre o campo e a cidade

Em seu disco de estreia, Aonde o Tempo é Solto, o cantor goiano Chal opta pelo rock rural, com letras e arranjos modernos, mas inspirados no cancioneiro popular interiorano

Bruno Félix23 de julho de 2014 (quarta-feira)
Cristina Cabral

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Em carreira solo, Chal faz sua estreia com oálbum Aonde o Tempo é Solto

 

Pop rock com jeitão caipira dá corpo à proposta sonora do cantor e compositor goiano Chal no seu disco de estreiaAonde o Tempo é Solto. O álbum incorpora nas dez faixas elementos do country norte-americano, do tradicional folk inglês, do blues e do sertanejo de raiz, apresentando e estilo rock rural do cantor. Os arranjos também impressionam pelo modo como sãocolocados os instrumentos eletrônicos, como a guitarra, e orgânicos, como o chicote, em uma miscelânea de estilos que soa interessante.

O grande diferencial da obra reside no tratamento contemporâneo dado às músicas, apesar de terem como principal referência o habitual cancioneiro popular interiorano. Por um lado, canções carregadas de cunho social, fazendo uma crônica do cotidiano e abordando temas como a pobreza. Pelo outro, a parte mais poética, com letras que falam de amor e das belezas do campo. É um trabalho direto e conciso que discute questões atuais pertinentes com muita seriedade.

Na abertura, Sabiá, Chal mergulha na beleza de uma toada à lá Almir Sater. É dela o verso Aonde o Tempo é Solto, que dá nome ao CD. A bateria traz nuances de bolero em torno do cerne de música caipira, mistura que faz sucesso no gênero sertanejo desde sempre – vide Bruno e Marrone, Chrystian e Ralf e outros tantos. A faixa, autoral, de 2004, ressalta a vida tranquila que se leva na roça, longe da correria da cidade grande. É uma boa aposta para se tornar single.

Introspectivas, algumas faixas procuram enfatizar sentimentos, sonhos e desejos. O Tal do Humano, por exemplo, composta em 2010, faz uma reflexão sobre injustiças sociais do País, como a prisão de um ladrão de galinha. O arranjo, que traz o estalo do chicote, lembra a clássica Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho. Na mesma linha, A Velha Lei, de 2004, aborda oisolamento social provocado cada vez mais pelo individualismo da sociedade moderna.

Arranjos belíssimos e melodias psicodélicas constroem a empolgante Caminho da Roça, de 2010. A composição narra a saga de João e Maria no melhor estilo Legião Urbana, recordando as voltas e reviravoltas de um relacionamento incerto. Os riffs de guitarra formam um tempero delicioso na melodia. Com ares épicos, A Lenda do Campo, que abre e fecha com o som do berrante, faz uma homenagem ao trabalhador rural. A canção é de 2009 e foi feita primeiramente em inglês.

REGRAVAÇÕES

Das dez faixas, o disco conta com três regravações. Em Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, de 1966, eternizada por Jair Rodrigues, Chal conserva a elegância da original e traz uma leitura mais moderna, acelerada, com punch pop-rock. A escolha foi acertada porque o contexto do hino, que faz uma comparação entre a exploração das classes sociais pobre pelas ricas, se casa com toda a proposta conceitual do projeto que prima por evidenciar a qualidade do povo.

A outra grata surpresa do CD foi Eu Só Peço a Deus, versão de Solo Le Pido a Diós, do argentino León Gieco, feita pelo gaúcho Raul Ellwanger. A original foi gravada em 1983 por Mercedes Sosa. No Brasil, a canção ficou conhecida graças a um dueto feito entre a artista argentina e a sambista Beth Carvalho, em 1986. Na sua versão, Chal faz uma pegada mais rock, com uma mão pesada no violão. Além dela, a última não autoral do disco é Meu Velho, Meu Amigo, de Emiliano Sette. No geral, o disco é consistente, pensado com muito cuidado. Agora é ouvir e já esperar pelo próximo trabalho que já está em processo de produção.

De Pink Floyd ao rock rural

23 de julho de 2014 (quarta-feira)

A paixão pela música começou cedo na vida do cantor goianiense Gustavo Henrique Bernardes Balduino, conhecido como Chal. Desde os 10 anos ele toca piano. Em 1996, foi tecladista de um grupo cover do Pink Floyd. Depois teve uma banda de new metal. Só que nenhuma das experiências deu certo profissionalmente. Ele, então, tentou seguir a carreira de engenheiro em Florianópolis, mas acabou desistindo e voltando para fazer Direito na capital.

Na época, já fazia suas próprias composições. Acabou não concluindo o curso e fez parte da banda Humildes Humanos, que também não vingou. Chal ainda tentou outras duas formações com grupo até seguir carreira solo e adotar como estilo o rock rural, que surgiu nos anos 70 no Brasil e que fala da simplicidade do campo. “Foi nesse período que percebi que uma viola caipira bem tocada soa como blues. Apesar de escutar rock, cresci indo para a fazenda, gosto de roça”, afirma.

Fonte: O Popular – 23 de julho de 2014 – http://www.opopular.com.br/editorias/magazine/entre-o-campo-e-a-cidade-1.614722



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